15.Fevereiro.2007 - Coluna Cabverd di meu - Joaquim Saial
D. FAUSTINO MOREIRA DOS SANTOS, ANTIGO BISPO DE CABO VERDE A 27 de Julho de 1955, falecia no lisboeta Hospital do Ultramar o bispo de Cabo Verde, D. Faustino Moreira dos Santos. O prelado nascera a 29 de Maio de 1885, em S. Miguel de Gandra, Paredes, onde hoje há uma avenida com o seu nome. 70 anos de vida, portanto, em grande parte dedicados à função religiosa, e os últimos 14, quase exactos, dirigindo os destinos da igreja cabo-verdiana – para ali fora nomeado em 28 de Janeiro de 1941 e ordenado bispo a 13 de Julho do mesmo ano. Não lhe era desconhecido o continente africano, facto que terá pesado na sua nomeação para o arquipélago, visto que entre 1919 e 1940 estivera no chamado Congo Inferior (zona religiosa orientada por Angola). Igreja de N.ª Sr.ª da Luz Mindelo, ilha de S. Vicente © Joaquim Saial
Pertencente à Congregação do Espírito Santo, fizera os estudos preparatórios no antigo Seminário da Formiga (da sua congregação), em Ermesinde, e cursara Filosofia e Teologia em Carnide e Paris. Ordenado presbítero em 1909, dedicou-se ao apostolado das Missões, em 1910, partindo depois para o Congo, onde primeiro trabalhou como missionário e depois como prefeito apostólico, até que a Prefeitura foi integrada na diocese de Luanda. Contudo, foi em Cabo Verde que mais a sua acção se fez sentir. Sagrado bispo da colónia na igreja de S. Domingos, em Viana do Castelo, logo partiu para o território onde levou a cabo notável obra de apostolado, impondo-se à admiração do povo e do Governo locais. Aquela que se conta como a mais importante actividade que ali empreendeu foi o renascimento missionário de Cabo Verde, após o Acordo Missionário de 1940, com o reforço de pessoal secular e religioso: caso dos padres do Espírito Santo, capuchinhos, salesianos e irmãs do Amor de Deus que tantos e tão nobres serviços prestaram e continuam a prestar à comunidade em que se inseriram. No que concerne aos salesianos, um primeiro grupo de seis missionários chegou em 1943, pouco após o início do magistério do bispo. Chefiados pelo padre Francisco Leite Pereira, estiveram em S. Nicolau até meados dos anos 50, altura em que passaram a S. Vicente. Ali foi adaptado um edifício que tivera ocupação militar a escola de artes e ofícios, em regime de internato e externato. Ainda hoje este estabelecimento de ensino é motivo de boas memórias para sucessivas gerações de cabo-verdianos que ali se formaram e de onde partiram para a vida activa com sólida formação intelectual e oficinal, alguns dos quais mesmo para a universidade. Isto, sem nunca descurarem os salesianos as actividades pastorais da paróquia sanvicentina, que se mantêm. Os capuchinhos chegaram pouco depois, em 1947, com um pequeno contingente proveniente da cidade italiana de Turim. Também estes frades pobres têm exercido significativa acção missionária nas ilhas, de enaltecer, para além de manterem uma rádio e um periódico (“Rádio Nova” e “Terra Nova”). D. Faustino Moreira dos Santos esteve em Roma para a canonização de S. João de Brito, na chamada “peregrinação imperial portuguesa” que congregou muitos romeiros das colónias. Em 12 de Junho de 1947 o grupo de Cabo Verde, que tinha como porta-voz o médico Álvaro Tavares, ao ser recebido pelo ministro das Colónias, capitão Teófilo Duarte (governador de Cabo Verde entre 1918 e 1919), havia de ouvir da boca deste que “um vasto aproveitamento das possibilidades de Cabo Verde” estava para ser levado a efeito… e que a colónia era “como a Índia, a mais próxima de [Portugal], pois não [havia], nas suas terras, qualquer analfabeto”… Um dos últimos actos religiosos do bispo, cerca de dois meses antes de falecer, foi a celebração do solene “Te Deum” na igreja de N.ª Sr.ª da Graça, na cidade da Praia, por ocasião da demorada visita do Presidente Craveiro Lopes a Cabo Verde, em 15 de Maio (a viagem presidencial terminou a 27). O corpo do ilustre prelado esteve em câmara ardente na igreja de Alcântara, de onde o funeral saiu para o cemitério de Gandra-Baltar, em Paredes do Douro tendo ali sido depositado em jazigo de família. A absolvição final foi-lhe dada pelo núncio apostólico. |