8.Março.2007 - Coluna Cabverd di meu - Joaquim Saial
NAVIOS QUE DEIXARAM SAUDADE NO MINDELO: 2 - O Vera Cruz
 O paquete Vera Cruz era um dos mais famosos navios da Companhia Colonial de Navegação. Com propulsão a vapor e casco em aço, foi construído em 1951 pelos estaleiros da Société Anonyme John Cockerill, em Hoboken, Bélgica. Destinava-se à carreira da América do Sul, para transporte de passageiros e de carga, e possui significativo lugar na história da emigração portuguesa para o Brasil. Estava equipado com modernos aparelhos de radar, com alcance de 30 milhas, agulha giroscópica e piloto automático. Os passageiros, que se podiam alojar em três classes, dispunham de salas de cinema, jardim de Inverno, piscina e hospital. Comportava camarotes para 8 pessoas em classe de luxo, 190 em primeira, 200 em segunda e 844 em terceira, num total de 1242 passageiros. Desenvolvia uma potência de 25.500 cavalos, dando uma velocidade máxima de 22 nós. O seu comprimento era de 185,50m e de boca máxima, cerca de 23.
Na viagem inaugural, iniciada a 20 de Março de 1952, com destino ao Rio de Janeiro, teve como passageiro de honra o almirante Gago Coutinho. Já na década de sessenta, efectuou o transporte de tropas para as ex-colónias. Em 1973, foi vendido à Formosa, à semelhança de outros navios da mesma companhia.
A primeira vez que o Vera Cruz tocou o Porto Grande de S. Vicente, em 25 de Abril de 1952, regressava da citada viagem ao Brasil. O paquete chegou tarde, já noite, mas nem por isso o acontecimento foi ignorado por numerosa população presente para o observar, em dezenas de embarcações que logo o rodearam. Saíram as autoridades em visita oficial para uma lancha (decerto a da Capitania, que ao navio levara o piloto) e durante o resto do serão, em viagens sucessivas, também alguns passageiros e jornalistas – pois como relata anónimo enviado especial do «Diário Popular» era aquele “o único pedaço do Império ultramarino português que tinham possibilidade de pisar”. “Ninguém se arrependeu”, diria de igual modo o jornalista, que fez saborosíssima reportagem do acontecimento, não se esquecendo logo de início de referir as deficiências do desembarque, aludindo ao cais sem condições ao qual na maré-baixa não conseguiam atracar os rebocadores e outras pessoas que a ele se dirigiam, sendo preciso “içá-las”… Chegado a terra, extasia-se. O que vê ele? Ruas calçadas à portuguesa, casas como as de qualquer vila metropolitana, em cores variadas, largos com as inevitáveis palmeiras coloniais e, sobretudo, um busto de Camões (o da Praça Nova, hoje de Amílcar Cabral, mas não o de Sá da Bandeira que lhe terá passado despercebido), que considera obviamente “de portuguesismo eterno”. E passa pela Câmara Municipal, desce à Rua de Lisboa, vê o Mercado Municipal e entra no Café Royal. Neste, que na altura decerto ainda ostentava o luxo que foi seu apanágio durante muitos anos, contacta com a música local. E é tão viva a descrição que não é possível resistir a transcrevê-la na íntegra: “Visitámos, à hora adiantada da noite, o «Café Royal», onde uma negra tocava melancolicamente piano numa alegria que se perdia nas trevas da noite, sem público que contagiasse… Depois, os músicos, negros também, acompanham os jornalistas que percorrem a cidade e vão, tal como numa serenata coimbrã, acordando a população com as suas «mornas» tristes, nostálgicas, cantadas por vozes dolentes e tocadas em ritmos cheios de sentimento pelo Mochinho do Monte – um cantor ambulante cheio de intuição e de talento. A noite cabo-verdiana ia-nos cercando gradualmente…”
Temos então que a dita pianista negra e sem público (quem seria ela?) fica só e os acompanhantes, entre os quais pontua o famoso Mochinho do Monte, seguem os jornalistas. Para onde se dirigem todos? Sobem a Rua de Lisboa, viram à direita e percorrem o caminho que os há-de levar ao «Grémio Sportivo Castilho». De novo somos forçados a reproduzir mais um excerto do delicioso texto do enviado do «Popular»:
“Visitámos mais tarde o «Grémio Sportivo Castilho», o mais antigo da cidade, onde os sócios estão em grande noite de baile. À moda da terra, logo oferecem os seus pares aos visitantes; começámos a dançar com as crioulas e de vez em quando já naquelas areias portuguesas de África se ouvem acordes estrídulos de «sambas». Mas preferimos as «mornas». – as «mornas» que vamos dançando até mais tarde, sob a égide de uma oleografia antiga de António Feliciano de Castilho, cerveja e bolos gostosos. De regresso ao cais, acompanham-nos ainda os tocadores entre enxames de cabo-verdianos que vendem colares de conchas coloridas, bugigangas, recordações – mais do que nos deixam estas inapagáveis horas ultramarinas, em terra tão portuguesa e acolhedora, uma terra cuja flagrante pobreza não exclui alegria, uma terra que tudo tem que importar… menos o seu desejo de cantar alegrias e mágoas na letra melodiosa das suas «mornas»? …” Mas não regressam sozinhos a bordo os jornalistas. Acompanham-nos, cortesmente, nada mais, nada menos, que duas figuras gradas da intelectualidade da ilha: o poeta Jorge Barbosa e o escritor e docente liceal Baltasar Lopes (que pouco antes estivera no Brasil), para além de J. Inocêncio da Silva que era o correspondente local do «Diário Popular». O que foram estas personalidades, a altas horas da noite, fazer a bordo do Vera Cruz, não o diz o jornal. Mas estamos em crer que terão aproveitado a oportunidade para saudar o almirante e navegador áereo Gago Coutinho, tão ligado a Cabo Verde pelo seu mais famoso feito, que nele viajava mas que a crónica não narra…
 No dia seguinte, o Vera Cruz partia para Lisboa. E as últimas palavras do jornalista, lembradas do que viu nessa hora de zarpar, são menos alegres: “O Vera Cruz sai por entre as ilhas e se pode ver como S. Vicente é vítima da Natureza, que lhe proíbe a vegetação, a água e as condições de opulência. Se não fosse isto, na rota para a América do Sul já teria vencido Dacar, as Canárias, todos os portos que lhe disputam os barcos… e os aviões. E apesar de tudo, ainda hoje entram, por dia, em Cabo Verde, cinco navios… Mas antigamente entravam quinze ou vinte… A luta gigantesca de Cabo Verde é o seu maior título de glória! ”Muitas outras vezes o Vera Cruz terá tocado o arquipélago. Numa delas, quatro anos depois, em Maio de 1956, levou a Missão Científica ao Ultramar, chefiada pelo Dr. Almerindo Lessa, director do Serviço de Sangue dos Hospitais e especialista no Hospital do Ultramar. Com ele, seguiam os doutores Jacques Ruffié, da Universidade de Toulouse e subdirector do Centro de Pesquisas Hematológicas do Sul de França, Mortó Dessai, assistente da Escola Médica de Goa e bioquímico dos Hospitais Civis de Lisboa, Olímpio Martins, médico do quadro ultramarino e o preparador sr. Luís Azevedo. A missão ia proceder à instalação do Centro de Sangue de S. Vicente, que teria sede em edifício próprio e para o qual a então colónia adquiriu na Metrópole, por intermédio da Delegação Comercial do Ultramar, importante mobiliário e material técnico. Ao mesmo tempo seriam realizados estudos de hematologia clínica e laboratorial e de sero-antropologia em várias ilhas do arquipélago. Aqui ficam, pois, as curtas descrições de duas visitas, duas pequenas histórias, entre muitas outras, que este importante navio da defunta marinha mercante portuguesa fez a Cabo Verde, nomeadamente ao Porto Grande. Quantas mais não houve, que jamais serão contadas, esquecidas na memória do tempo…
ADENDA:
O amigo e atento leitor Valdemar Pereira (cabo-verdiano residente em França) enviou-nos alguns interessantes dados que complementam este artigo sobre o Vera Cruz e que com todo o gosto partilhamos com os nossos leitores.
Segundo ele, a tal «negra que tocava piano melancolicamente» seria a «célebre Tututa de Nh’Anton Tchitche». Assim sendo, esta Tututa era Epifânia Freitas Silva Ramos Évora que acompanhou Bana numa digressão através de várias cidades do estado de Massachussets, EUA, como refere Carlos Filipe Gonçalves no recente e muito útil livro «Kab Verd Band» e que ficou célebre pelas suas actuações no Café Royal (ver biografia na citada obra). Quanto a Mochim de Monte, foi reputado violinista mindelense, contemporâneo de B. Léza. Segundo a memória (bastante fiável) de Valdemar Pereira reza, «era um violinista que foi grande e tocava em quase todos os bailes antes da chegada de Dakar do exímio clarinetista, Musa de seu nome, pai do inesquecível Luis Morais.»
Valdemar Pereira informa também que numa das viagens do Vera Cruz (esta, quase de certeza), de facto a comitiva fez uma visita ao Castilho, em altura de baile. Alguém então o terá empurrado para os braços de uma bela forasteira, indígena de uma outra ilha (no caso açoriana), com a qual acabou por dançar algumas músicas. Tratava-se da poetisa Natália Correia…
Um abraço para o Val e os agradecimentos por estas notas curtas e soltas mas muito interessantes. |