Sol/Lusa - 1.Março.2008
ARQUITECTOS DEVEM PENSAR MAIS NO HOMEM QUE HABITA AS CASAS E MENOS NA ESTÉTICA
O arquitecto António Baptista Coelho, investigador principal do departamento de edifícios do Laboratório Nacional de Engenharia Civil (LNEC), defende um maior peso da vertente humana nos cursos de arquitectura«Os jovens arquitectos preocupam-se muito com a estética, com o desenho, e pouco com quem vai habitar as casas», disse.
Autor do estudo Habitação Humanizada, que será apresentado terça-feira no LNEC, Baptista Coelho acredita que «um escritório ou uma casa bem desenhada e bem pensada faz as pessoas mais felizes».
«A casa deve ser pensada e desenhada para o homem. A arquitectura precisa de interagir com os seus utilizadores, avaliando sempre a adaptação à sociedade», considera, dando o seu próprio exemplo quanto à influência no homem do espaço onde habita.
«Desde que mudei de casa consegui concluir alguns trabalhos», confessou Baptista Coelho, que na investigação que fez para o LNEC cita o arquitecto George Fergunson: «uma escola melhor desenhada leva a um melhor ensino».
«É preciso melhorar a área da formação na arquitectura. Falta matéria teórico-prática. E deve-se começar pelo nível mais elevado, organizando pós-graduações e mestrados sobre como humanizar a habitação». «Mas nos primeiros anos da formação do arquitecto também é importante insistir na humanização do habitar e mostrar a sua importância. Só assim teremos no futuro cidades mais humanas», disse. Baptista Coelho chama ainda a atenção para a diferença entre uma «boa casa» e uma «casa grande». «Temos em Portugal bons exemplos, mesmo na área da habitação social e de custos controlados, de conjuntos habitacionais com casas pequenas, mas que funcionam bem e onde os seu moradores são felizes», afirmou. «Se as pessoas que lá moram dizem que nunca de lá querem sair é por alguma razão». Na investigação Habitação Humanizada, o investigador principal do núcleo de Arquitectura e Urbanismo do LNEC dá como bons exemplos o bairro de Alvalade, os 500 fogos do bairro do Arco do Cego e o conjunto habitacional da EPUL no Restelo. Como maus exemplos aponta alguns bairros de Chelas, onde diz que não se conseguiu adequar as habitações às características socio-culturais dos moradores, e os «realojamentos em massa» feitos no âmbito do Programa Especial de Realojamento (PER). Baptista Coelho fala ainda da necessidade de «reconstrução das cidades» e de um «novo urbanismo». Propõe como solução que se faça «um estudo do desenho do habitar» para saber «como fazer cidades mais agradáveis». De negativos nas cidades actuais o estudo aponta a descaracterização do espaço público, o sistema de transportes, a poluição e a perda de identidade e de sentimentos de pertença dos habitantes. «A casa não é isolada. Deve integrar-se no bairro de forma a promover sentimentos de vizinhança e interacção entre os moradores e deste espaço com o resto da cidade, com boas acessibilidades», disse o especialista. «Habitar não é só da casa para dentro». |