| Joaquim Saial - Navios que deixaram saudade no Mindelo (1) - O "Alfredo da Silva" |
22.Fevereiro.2007 - Coluna Cabverd di meu - Joaquim SaialNAVIOS QUE DEIXARAM SAUDADE NO MINDELO:1 - O Alfredo da SilvaÉ sabido que em virtude da enorme extensão do seu império ultramarino e distância entre a Metrópole e as colónias – a que acresceu a Guerra Colonial a partir de 1961 –, Portugal teve necessidade de possuir vasta frota mercante (de passageiros e de carga) e também de guerra. Hoje, só resta a memória de algumas dezenas de navios a que tantos portugueses e naturais dos territórios que após o 25 de Abril se tornaram independentes ainda estão ligados sentimentalmente, tanto por bons como por maus motivos. ![]() Não é contudo fazer esse historial o objectivo do presente texto e dos das próximas semanas, mas tão-somente falar de alguns barcos que ainda hoje são recordados em Cabo Verde com saudade, distintos na dimensão, luxo e funções, de companhias diferentes e com carreiras também diversas, todos com o seu quinhão na longa e rica gesta marítima das ilhas – aquele de que hoje nos ocuparemos, inclusive, até na vida do autor destas linhas… O Alfredo da Silva era um navio misto, de passageiros e carga, construído pela Companhia União Fabril no estaleiro naval da Agência Geral dos Portos de Lisboa, em 1949. Com cerca de 103 metros de comprimento e quase 14 de boca máxima, possuía um porte bruto de 3.374,14 toneladas, potência de 2660 cavalos (produzida por dois motores suecos a diesel), e conseguia obter a velocidade máxima de 13,5 nós. Navegava com 45 tripulantes e podia albergar 88 passageiros, 20 em primeira classe e 68 em classe turística, também designada por “segunda”. Foi pertença de apenas dois armadores, a Sociedade Geral de Comércio, Indústria e Transportes (popularmente conhecida por Sociedade Geral e pela sigla SG), de Lisboa, entre 1950 e 1972, e a Companhia Nacional de Navegação, até 1973, ano em que foi abatido ao serviço. ![]() O "Alfredo da Silva", em versão rara, com o casco pintado de escuro. No início de Dezembro de 1950, na sua viagem inaugural, o Alfredo da Silva escalava o Porto Grande de S. Vicente. E o facto, como era de esperar, constituiu enorme acontecimento. O agente da SG no Mindelo, Serafim Adrião Lima, convidou o capitão dos portos, os chefes das diversas repartições, comerciantes e outras figuras das forças vivas mindelenses para uma visita a bordo. A recebê-los, estava o comandante do navio, capitão Joaquim Marques Pereira, e o médico de bordo, dr. Joaquim Lobo, que os acompanharam em demorada observação ao navio – a qual, segundo nota de reportagem do correspondente do “Diário Popular” no Mindelo, J. Inocêncio da Silva, deixou as melhores impressões. Após a visita, foi servido um lanche no deck, durante o qual o comandante Joaquim Lobo se referiu à Sociedade Geral, ao iniciador da mesma, o industrial cujo nome era o do navio que comandava, e a Manuel de Melo, continuador da obra do fundador da CUF, já falecido. Não se esqueceu o capitão de aludir ao então actual ministro da Marinha, segundo ele grande renovador da frota mercante portuguesa – o que era realmente verdade, pois nela muito se empenhou o futuro Presidente da República Américo Tomás que nessas suas funções teve de facto influência determinante. Reza a crónica de Inocêncio da Silva que pelas gentes do Mindelo falaram António Augusto Martins e Augusto Manuel Miranda. Refere ele também que a viagem do Alfredo da Silva estava a ser feita à média de 14 milhas por hora. A ser verdade, o navio estava a ser esforçado, pois em velocidade normal dava 12 nós e no máximo, como antes se apontou, fazia 13,5. É possível que essa estimulação se tenha devido ao facto de ser uma primeira viagem e querer o capitão puxá-lo até ao auge do rendimento, para conhecer todas as suas potencialidades. A ligação do navio às ilhas cabo-verdianas (bem como a do seu irmão gémeo Manuel Alfredo) foi longa de duas décadas e contínua. Muitos alimentos e mercadorias que chegaram a Cabo Verde nos anos 50 e 60 foram carregados no seu bojo. Mas também muita pozolana, bananas e outros produtos do arquipélago chegaram a Portugal através dele. Para não falar dos civis e militares que levou, de um lado para o outro, incluindo os ilhéus que iam até ao Continente em “licença graciosa”. Pouco mais de três anos depois desta sua apresentação pública aos mindelenses, em fins de Janeiro de 1954, havia o “Alfredo da Silva” de fazer transporte bem sinistro e mais ou menos secreto transporte, de Cabo Verde para Portugal. Tratava-se da vinda de Francisco Miguel, militante e dirigente do Partido Comunista Português, último preso político detido no Tarrafal durante a primeira fase de funcionamento do trágico campo da morte. Pressões internacionais e internas haviam obrigado Salazar a encerrar (ainda que temporariamente) a indigna Colónia Penal, de má memória… E na véspera de Natal de 1965, partiu do Mindelo para Lisboa, no mesmo vapor, o miúdo que muitos anos mais tarde havia de ter no “Liberal” esta coluna, finda a comissão do pai como patrão-mor da Capitania dos Portos. Durante cinco dias, sentiu bem o Alfredo da Silva. Literalmente. Sobretudo naquela tarde em que o balanço violento produzido por uma vaga mais forte o atirou de encontro ao topo de uma porta, fazendo-lhe um lanho que deu sangue em barda, custou a estancar e deu adesivo no toutiço, curativo feito com a ajuda do Romualdo, antigo motorista cabo-verdiano do capitão dos portos e na altura, por coincidência feliz, criado de bordo. Mas isso é história ínfima entre milhares de outras que decerto se produziram a bordo daquele navio e que toda a gente que nele navegou terá para contar. Como por exemplo Maria Helena Bonaffoux que também lá vinha e chegada a Lisboa foi interpelada na alfândega porque trazia algo para oferecer a familiar ou pessoa amiga que supostamente deveria pagar taxa aduaneira… Terá sido a esposa do ex-patrão-mor a safá-la do aperto, com muita persistência e diplomacia. Mas isso, aqui o cronista só o soube muitos anos depois, em 1999, à esquina da Drogaria do Leão, falando com a dita senhora… |