Lagos - O polémico mon. a D. Sebastião - Texto clássico de José-Augusto França

A ESTÁTUA DE D. SEBASTIÃO, AGORA EM LAGOS

José-Augusto França


in «Diário de Lisboa», 4.10.1973, depois publicado em FRANÇA, José-Augusto, Quinhentos Folhetins, Vol. 1, Colecção Arte e Artistas, Imprensa Nacional – Casa da Moeda, Lisboa, 1984.
 
 
 
 Ao longo dos meses, em visitas ao atelier, fui vendo crescer e formar-se a estátua de D. Sebastião que está agora em Lagos. Já dela falei aqui, quase pronta que estava, ao princípio do Verão – mas reservando-a para folhetim próprio. E merecido.

A data da inauguração (que, não sei porquê, os jornais não noticiaram) chegou – e a estátua apareceu, com aplauso de uns, dúvidas de outros, e inevitáveis movimentos de horrificada sandice. A estátua apareceu e ali está, honrando a pracinha de Lagos como um dos melhores monumentos portugueses, por razões políticas e intelectuais também.

Depois do malfadado monumento projectado para Sagres por João Andresen, Barata Feyo e Júlio Resende, o monumento de D. Sebastião, por João Cutileiro, é uma admirável obra de arte. Impar em Portugal – e não só em Portugal – no meio de uma estatuária comemorativa que, ratificada hoje em dia pela Europa fora, dificilmente encontra soluções iconográficas não académicas, dentro de programas figurativos.

…Mas D. Sebastião é D. Sebastião e não qualquer outra personagem sem apelo mítico: e a estátua de que se trata é de Cutileiro e não de outro escultor mais habitual de encomendas públicas, funcionário zeloso de neves de antanho como das belezas municipais, ambas sem complicações. Por outras palavras: ao problema do rei de Alcácer-Quibir juntava-se o do escultor de Lagos. Do escultor que tem marcado na arte portuguesa uma posição de intransigência em relação a valores estereotipados. E que, em matéria de estátuas, seria incapaz de, como tantos outros, resolver a sua nas pregas rígidas de um capote ou capa – fazendo aquilo a que, por causa da capa, tenho chamado a eskultura nacional, que teve os seus Arnos Brekers de serviço.

O D. Sebastião, por seu lado, não se sabe bem o que seja: lição de portucalidade, ou de sonho, ou de saudade. Tal (aliás) como o poeta que o cantou, lhe dedicou o poema da Pátria já finda – e lhe chamou, dela, «bem nascida segurança», que pateticamente não poderia ser, com tantos ventos da história a soprarem.

D. Sebastião fez de Lagos uma cidade e de lá partiu com a frota da sua perdição. Quatrocentos anos depois do primeiro facto, e trezentos e noventa e cinco anos após o segundo, a estátua ergueu-se na simpática praça do Município. E tal como a fui vendo, até a ver acabada, é uma excelente e extraordinária peça de escultura.

Pedestre. Poderia ser equestre? Podia, sem dúvida, que a cavalo morreu o rei. Mas assim desmontado, com o elmo aos pés, os braços balançando, o olhar perdido, se apresentou mais verosimilmente, diante dos seus maiores – criança mal crescida, morta numa catástrofe maior do que o próprio sonho, desaparecida entre cadáveres loucos, sangue empapado e estrume de cavalos…

Cerca de 1956, preocupou-se um quotidiano de Lisboa em recolher opiniões autorizadas sobre como devia ser iconograficamente representado o Nun’Álvares destinado então ao alto do Parque Eduardo VII. Militares insistiram na forma pedestre – já que o condestável era o patrono da Infantaria portuguesa; mas Diogo de Macedo respondeu que «uma estátua de herói devia ser feita a cavalo». A gramática da frase despertou-me dúvidas e, ao encontrar na «Brasileira» o excelente amigo, perguntei-lhe quem é que devia estar a cavalo, ao fazer da estátua – o modelo, ou o escultor. Diogo fez uma das suas malévolas caretas, riu todo por dentro, de malícia, e nunca me respondeu… No caso presente, o rei e o Cutileiro estiveram ambos a pé. E sem capa.

...O herói (o anti-herói – mas teremos a coragem de o saber assim?) olha-nos, pousado quase no mesmo chão que pisamos. Olha-nos, sem nos ver, fantasma de si – quiçá de nós próprios. Na cabeça pequena, os olhos luzem na sombra das órbitas e a face de efebo diminui sob a imensa cabeleira de pajem. Daí para baixo cai o corpo articulado de braços e pernas, com o tronco inchado pela armadura, e as mãos sem jeito, dentro dos guantes. O elmo, aos pés, é uma lembrança apenas: a espada perdeu-se no combate imaginário.

D. Sebastião-meditação – para 1973 – alguém o suspeitaria, depois das polémicas da geração romântica e da geração de 90, e dos anos 20 do malheiro Dias? Mas ele ali está, de pedra bruta, e nos olha. Há que, algum dia, lhe responder. Há sobretudo, que entender a pergunta que nos faz.

João Cutileiro rematou contra a imagística do costume, por talento próprio, de escultor, mas também por entendimento de um modelo mental. Tudo é intenção na sua obra – intenção dele e intenção nossa, do autor e do espectador que aguente o diálogo incómodo. Do espectador que tenha cultura ou sensibilidade ou inteligência suficientes para o fazer.

Que isso se passe em escultura, com uma força plástica sem quebra nem receio do aparentemente fruste, do aparentemente inacabado, é coisa rara, na tradição da estatuária portuguesa geralmente tímida, apastichada de Nuno Gonçalves ou de Francisco Franco (que era o «Nuno Gonçalves» do cinzel), desde 1928. Na sequência de imagens de rotina, que pouquíssimos rasgos de verdadeira escultura interromperam, aqui, e além, a estátua de «D. Sebastião» constitui uma ruptura escandalosa. Não, decerto, definitiva, que o «espírito de encomenda» não se modifica assim, e o bronze académico-modernista continuará a correr, a pé ou, mais dispendiosamente, a cavalo, por essas praças do País, mas já com o anúncio da possibilidade de outra coisa, em matéria de monumento iconográfico. E não só em Portugal.

 …Com problemas formais e intelectuais, plásticos e míticos, estéticos e éticos – inteligentes, sérios e dignos, como em Lagos pôde felizmente acontecer, em Setembro de 1973.